quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Vermelho Brasil - um estudo audivisual do intérprete colonial



O filme Vermelho Brasil que é um filme épico histórico baseado no livro homônimo (Rouge Brésil) do escritor francês Jean-Christophe Rufin.

Eis a história do filme: 

Em 1555, Just e Colombe Clamorgan, dois jovens franceses decidem ir ao Brasil em busca de seu pai. Eles são contratados como intérpretes em uma expedição colonial liderada pelo almirante Villegagnon. As mulheres não são bem-vindas nas expedições. Então, Colombe veste-se como homem e passa a se chamar Colin.

Os franceses ao se instalar numa colônia em terras portuguesas em nome do rei Henrique II são rapidamente confrontados com os povos indígenas, alguns canibais tradicionais e outros escravos do bandido português João da Silva. Colombe é capturada pelos índios, mas conseguiu se integrar dentro da tribo liderada pelo antigo francês Pay Lo que fez sua vida entre eles. Villegagnon desenvolve planos para construir uma fortaleza de pedra, mas com a falta de recursos humanos, tem de negociar com João da Silva no empréstimo de escravos indígenas, contrariando os princípios ditados por seu humanismo, a sua fé religiosa e respeito às populações locais.

Apesar das dificuldades, Villegagnon continua com seu objetivo de construir uma colônia francesa governada com humanismo. Para competir com o poder de José da Silva, pediu reforços para o rei da França e John Calvin. Villegagnon fez amizade com Just, o filho de seu antigo companheiro da cavalaria. Colombe, escondendo-se na tribo de Pay Lo, se adapta com prazer ao estilo de vida indígena. A chegada de colonos enviados por John Calvin, acompanhados por suas esposas, aumenta as tensões religiosas, enquanto que José da Silva prepara a destruição da colônia.


O que chama atenção neste filme são os personagens que fazem os papéis de intérpretes. Para quem estuda a historiografia da tradução, os passos de como os intérpretes eram recrutados, de como eles aprendiam as línguas indígenas, de como eram postos de frente com as comunidades indígenas são minuciosamente trabalhados no filme.
Alguns dos elementos são reforçados ou confirmados pela História, outros parecem estar no imaginário do cineastra, mas que nos fazem refletir de como era a intereção/ necessidade dos intérpretes na época colonial no Brasil.

Um bom estudo do imaginário do intérprete poderia ser feito a partir deste filme.
Vale a pena ver!

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Gregório de Matos Tradutor?



O poeta baiano Gregório de Matos do setecentos brasileiro é um dos grandes ícones de nossa Literatura. Todavia, há ainda um impasse mal resolvido em sua crítica. Ora disse-se que o escritor se apropriou de versos traduzidos dos poetas espanhóis Francisco de Quevedo e Luis De Gongora introduzindo-os em seus póprios versos; ora dize-se que ele traduziu os poemas na íntegra sem mencionar os autores originais.
O que a História da Tradução pode mostrar é que no Setecentos ainda não existia a ideia de autoria, conceito que será manifesto com maior vigor no século XIX, portanto, os atos de imitar, criar, plagiar e traduzir não tinham diferenças - o que pode ser uma possível explicação para o caso.
Entretanto, há questões que ainda ficam no ar: se é tradução, por que o poeta não mencionou a autoria? Por que misturar versos dos poemas alheios em meio aos seus?

Uma boa pesquisa aos interessados. Deixo aqui dois textos que dão um pontapé nessa questão:


Os sonetos de Gregório de Mattos de Silvia La Regina. Disponível aqui.

Personas gregorianas: a poesia de Gregório de Matos e as convenções retóricas de Antônio Donizeti Pires. Disponível aqui.

Boa leitura!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Os Estudos da Tradução no Brasil - referências de uma história

Para quem se interessa pela história dos Estudos da Tradução no Brasil, indico algumas referências:

Os estudos da Tradução no Brasil nos séculos XX e XXI organizado pelos professores Andreia Guerini, Marie Hélène Torres e Walter Carlos Costa. Disponível aqui.



Um balanço dos estudos da tradução no Brasil. Artigo de Maria Paula Frota. Disponível aqui.

Os Estudos da da Tradução no Brasil: Relatos de Pesquisa. Artigo de Sinara Oliveira Branco. Disponível aqui.

Estudos da tradução no Brasil: reflexões sobre teses e dissertações elaboradas por pesquisadores brasileiros nas décadas de 1980 e 1990. Artigo de Adriana Pagano e Maria Lúcia Vasconcellos. Disponível aqui.

Caminhos e Descaminhos dos Estudos da Tradução e Interpretação no Brasil. Artigo de Heloísa Gonçalves Barbosa. Disponível aqui.

Editorial: Los Estudios de Traducción en Brasil. Artigo de John Milton. Disponível aqui.

Boa leitura!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Jornada de Estudos "Intérpretes e tradutores no espaço atlântico"

Estarei na Jornada de estudos "Intérpretes e tradutores no espaço atlântico" na Universidade do Maine.
Deixo aqui os cartazes e a programação do evento:





terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O imaginário do Intérprete em "Ao Leitor" de Bernardo Maria Cannecatimm

O prefácio da obra Diccionario da Lingua Bunda ou Angolense, explicada na portugueza, e na latina de 1804, encontramos várias justificativas do porquê publicar um dicionário. Todavia, entre as afirmativas do texto, encontramos várias referências ao imaginário bem como sobre a realidade da figura do intérprete no século XIX nas ex-colônias portuguesas. Escrevo logo abaixo alguns trechos deste prefácio para que os leitores tirem por conta própria algumas conclusões sobre o que era ser intérprete à época.


[...]
Daqui nasce: sujeitarem-se precisamente ao uso dos interpretes, pelos quaes se persuadem entenderem, e serem entendidos do Povo. Fazendo estes homens hum adminiculo indispensavel no ministerio da Palavra, e na propria administração dos Sacramentos. Porém, eu não posso mostrar, sem huma viva dor, a insufficiencia, e os males gravissimos deste meio na pratica da Religião em Angola, como eu mesmo vi, e experimentei.
Os interpretes são Negros do Paiz, gente bruta, que ignora da sua propria Lingua huma grande parte, e que da Portugueza apenas sabe os termos mais vulgares e usuaes. Por estes homens, ou por estes brutos, se ha de annunciar ao Povo a Doutrina da salvação nos seus Dogmas, e na moral, mas succede, frequentemente, que huns taes interpretes, ou não, percebem a força, e o verdadeiro espírito das palavras portuguezas, ou não sabe achar, e escolher na sua Lingua termos, que propriamente lhes correspondão, de que póde resultar o ensinar erros substanciaes, assim a respeito do que devemos crer, como do que devemos obrar.
Além desses horrorosos males, he visivel que as instrucções communicadas por interpretes, e taes interpretes, aos Fieis, ou seja no Tribunal da Penitencia, ou na Cadeia da Verdade, perdem huma grandissima parte de sua energia, e de seu fructo, passando pela languida expressão de um bruto Negro, em cuja boca fica, como suffocada, a semente Evangelica.
Os admiraveis effeitos, que produz no auditorio aquella acção, ou representação, que a Arte de orar chama eloquencia do corpo, inteiramente se invertem e inutilizarão com a interrompida, fria, e maquinal pronunciação dos interpretes: de maneira que a sonora, e tocante voz do Evangelho se faz como insipida, e dissonante pela indisposição do órgão que a communica; e a agua pura, e vivificante da Palavra contrahe huma especie de vicio, e sordidez no infecto canal, por onde transita.
[...]
Pouco he necessario meditar, para se conhecer, quanto convem que aquelles aos quaes está incumbido o governo e a administração da Justiça em qualquer paiz, saibão o idioma que nelle se falla. Se taes pessoas não tiverem esta intelligencia, constituem-se na indispensavel necessidade dos interpretes, e, em consequencia, na precisão de indagarem, e saberem por outrem o que muitas vezes o bem público, ou particular exigia, que ellas por si mesmas inquirissem, e soubessem. O importantissimo segredo das disposições politicas, e militares he forçoso que frequentemente seja entendido de hum interprete, (isto he, de um preto venal), ficando exposto a ser revelado, ou por huma simples facilidade, ou por hum insignificante premio.
Quantas vezes o acerto, e felicidade de uma operação militar, em que se interessa a defensa commum ou vencimento de uma batalha, está dependente da exploração, intelligencia, e fidelidade dos interpretes? E será justo que homens de tão pouca instrucção, e confiança sejão instrumentos necessarios do bem, e conservação pública?
Todas as representações, ou requerimentos, que a populosa Nação dos Abundos faz aos Chefes do Governo, lhes são declarados pelos interpretes: mas, se o pretendente, ou a súpplica não he do agrado do interprete, está no ponto de ser por este illudida, representando-a diversa; pondo assim, ao mesmo tempo, em ludibrio a authoridade de quem manda, e a justiça de quem pede.
O processo, tanto civíl, como criminal, dos Abundos, he igualmente feito pelo ministerio dos interpretes, sendo por elles explicadas as testemunhas, que fazem a prova do direito das partes, e o fundamento do julgado. Mas, oh quanto arriscada não é a administração da Justiça! Se o interprete está apaixonado, ou vencido contra qualquer litigante, elle então vem a ser o arbitro da sua fazenda, da sua honra ou da sua vida, transformando, como quer os ditos das testemunhas.
[...]
De tudo, o que fica ponderado, se conclue, que a intelligencia da Lingua Bunda, ou geral do Reino de Angola, he utilissima, e necessaria aos Ecclesiasticos no exercicio do seu ministerio; aos Governadores, e Magistrados na Regencia do Estado, e na Administração da Justiça; aos Chefes Militares no acerto do seu Commando, e na felicidade de suas operações; aos Commerciantes enfim no manejo do seu negocio, sendo uma ruina, e uma desgraça, que todas essas pessoas não vejão o objecto de suas funções senão ao travéz da opaca sombra de um Negro interprete.
[...]

Vale.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

A tradução na década de (19)40

Para quem se interessa sobre a tradução na década de 1940, eis um texto bastante esclarecedor de Maria Clara Castellões de Oliveira "A cleptomania do tradutor: a tradução no Brasil na década de 40 do século XX" disponível aqui.

Deixo o resumo abaixo para os interessados:

Este trabalho tem por objetivo avaliar resultados de pesquisas desenvolvidas no âmbito do projeto “Traduções Literárias: Jogos de Poder entre Culturas Assimétricas” em torno da prática da tradução por escritores brasileiros durante a ditadura civil que vigorou no Brasil nas décadas de 30 e 40 do século XX. Para tanto, serão analisadas as listas de traduções trazidas a lume por escritores-tradutores e as críticas de traduções realizadas por Agenor Soares de Moura e publicadas no Diário de Notícias, de Porto Alegre, entre 1944 e 1946. Parte-se do princípio de que, nesse momento, tais escritores-tradutores, em função de prescrições de seu entorno e dos relacionamentos estabelecidos pelo governo brasileiro em um contexto mundial, agiram de forma semelhante à do tradutor cleptomaníaco que dá nome a um conto do escritor húngaro Dezsö Kosztolányi (1996).

Boa leitura!

sábado, 19 de dezembro de 2015

A Fundação de São Vicente

O quadro abaixo intitulado A fundação de São Vicente foi pintado por Benedito Calixto em 1900 sob encomenda da prefeitura de São Vicente. Para a pintura do quadro, Calixto utilizou referências de documentos da época (século XVI) a fim de tornar esta pintura uma verdadeira fonte de estudo histórico iconográfico. Alguns estudiosos mencionam que o quadro está situado dentro da tentativa e da necessidade de artistas e intelectuais do século XIX que buscavam inventar uma História para a nação brasileira ainda jovem.



Todavia, para nós, estudiosos da iconografia da tradução, o que nos chama a atenção é a parte abaixo do quadro:



Esta parte da narrativa visual do quadro de Calixto remete ao ato de interação e comunicação dos portugueses com os índios. Podemos identificar Martim Afonso de Souza ao centro, os índios do lado esquerdo e a comitiva portuguesa (soldados e um padre) do lado direito. Além dessa divisão, percebemos três personagens importantes: João Ramalho, Antônio Rodrigues e, possivelmente, Cosme Fernandes Pessoa (o bacharel de cananéia). 
Estes três foram, no século XVI, os grandes intérpretes junto aos índios das comitivas portuguesas mais importantes à época. Os três foram casados com índias e eram conhecidos como "línguas da terra" porque sabiam a língua das tribos indígenas as quais faziam parte.
A evidência destes intérpretes na obra de Benedito Calixto revela a importância do ato da interpretação e de seu agente (o intérprete) para as conquistas do terrítório português que originou o Brasil.